O governo federal e o Congresso Nacional analisam ajustes na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. A proposta estabelece cinco dias de trabalho para dois de descanso. O texto sob relatoria do deputado Léo Prates (Republicanos-BA) deve prever uma regra de transição de dois a três anos e limite para trabalhadores com salários de até R$ 16 mil. As horas reduzidas seriam remuneradas sem impacto em encargos como férias e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Em meio ao debate, donos de pequenos e médios negócios têm flexibilizado jornadas de trabalho e relatam impactos na gestão. A transição para modelos como a escala 5×2 resultou na redução da rotatividade de pessoal (turnover), na queda do número de atestados médicos e no aumento da produtividade das equipes. As empresas registram maior tempo para o lazer dos colaboradores e o uso de tecnologias para manter o funcionamento da operação.
PEGN ouviu empreendedores de seis negócios que implementaram escalas de trabalho reduzidas e flexíveis para os funcionários. Veja a seguir:
DomEduc
Com sede em Alphaville (SP) e um quadro de 25 colaboradores, a DomEduc – empresa de educação corporativa – adotou o modelo 5×2 para a jornada de trabalho. A mudança da escala ocorreu por meio da implementação de inteligência artificial na área comercial, o que permitiu a automação de etapas da jornada do aluno e a redistribuição da operação. Douglas Domingues, CEO da DomEduc, afirma que “a mudança veio da visão de que o crescimento precisa caminhar junto com eficiência e qualidade de vida”.
O redesenho operacional exigiu o mapeamento da atuação humana e a integração da tecnologia em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) da empresa. De acordo com Domingues, o desafio central foi assegurar que “a experiência do aluno continuasse fluida” durante a adaptação de rotinas, metas e fluxos de atendimento.
Os impactos destacados incluem ganho de eficiência comercial e maior organização na operação. Com a absorção de tarefas repetitivas de matrícula e atendimento pela tecnologia, a equipe passou a ter uma “atuação mais estratégica”, com foco em conversão e relacionamento. O executivo relata que a mudança gerou um “time mais engajado, descansado e com melhor qualidade de entrega”, além de um clima organizacional “mais leve e produtivo”. Para o CEO, o mercado passará a exigir modelos que unem resultado à “sustentabilidade humana”.
Seven Kings Burger
A rede de hamburguerias Seven Kings Burger, de São Paulo, iniciou as atividades em novembro de 2017, após o sócio-fundador Fernando Russel vencer um concurso nacional de culinária. Atualmente, a empresa possui três unidades operacionais: na cidade de Santos, no litoral; Moema e Perdizes, bairros localizados na capital paulista. No total, o quadro de funcionários é composto por 30 pessoas. O faturamento conjunto das unidades é de aproximadamente R$ 700 mil mensais.
A implementação da escala 5×2 em todas as unidades ocorreu em abril de 2026, depois de um período de testes na unidade de Moema, iniciado em junho do ano anterior. Para viabilizar o modelo, a empresa passou a abrir às segundas-feiras e contratou um funcionário adicional. Russel relata que o impacto da mudança foi “positivo e surpreendente”, superando as previsões dele e dos outros dois sócios. Segundo o empreendedor, a alteração resultou em “funcionários mais dispostos e menos atestados”.
Russel pontua que o modelo gera “funcionários mais saudáveis mentalmente, com mais tempo de lazer para descansar”. O sócio informa ainda que a carga horária atual é, em geral, menos do que 40 horas semanais.
Fernando Russel, sócio-fundador da Seven Kings Burger, relata que adoção da 5×2 gerou resultados positivos para o negócio e os funcionários
Divulgação
Fala Bar e Chora Café
A escala 5×2 foi implementada no Fala Bar em 2024, enquanto a cafeteria Chora Café utiliza este formato desde o primeiro dia de funcionamento. Os dois empreendimentos estão localizados em Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ). “Com a escala 5×2, nós teríamos uma equipe mais descansada e disposta e de acordo com o que acreditamos como forma de gestão de equipe”, diz Tomás Lemos, sócio dos estabelecimentos.
O empreendedor relata que a empresa não enfrentou dificuldades na nova dinâmica, registrando uma melhora operacional desde o início do processo. Segundo ele, os impactos observados na operação incluem “redução de rotatividade de pessoal, com uma equipe mais motivada a fazer as funções necessárias”.
Lemos destaca ainda que houve um aumento na procura de profissionais interessados em trabalhar nas unidades, o que “facilita possíveis novas contratações”. “Os funcionários perceberam logo de cara uma mudança positiva, pois numa escala mais humanizada as pessoas têm mais tempo para resolver problemas pessoais, mais tempo para lazer e cuidar da saúde”. Para o sócio, o bem-estar da equipe “reflete diretamente na forma como ela leva o trabalho e as obrigações do dia a dia”.
Chora Café opera na escala 5×2 desde a abertura em 2024
Divulgação
Tirrô Confeitaria Artística
O Tirrô Confeitaria Artística, ateliê de bolos de casamento e doces finos, localizado em Brasília (DF), opera atualmente com prestadores de serviço sob demanda. O confeiteiro e proprietário, Rodolpho Tirrô, planeja a transição para a contratação de dois funcionários fixos em uma escala de trabalho de 4×3. O modelo prevê que os colaboradores se revezem durante a semana, com encontros em dias específicos, sendo um focado na produção e outro no desenvolvimento artístico.
Tirrô, que possui histórico de trabalho na escala 6×1 nos setores de publicidade e arquitetura, afirma buscar modelos que priorizem também a qualidade de vida da equipe. “Não quero que ninguém sofra as consequências do excesso de trabalho”, afirma. O empreendedor relata que, em áreas de criação, a motivação impacta a entrega final. “Com a troca e flexibilização da escala, a produtividade aumenta e o colaborador fica feliz e motivado, produzindo mais e melhor”, diz.
A mudança visa ainda o aumento do repertório criativo da equipe. Segundo o proprietário, o descanso permite que o colaborador traga mais conteúdo para o ambiente de trabalho. A estruturação de uma equipe fixa faz parte da estratégia para criar “uma linha de produção mais atrativa para o público final”. Atualmente, o negócio lida com uma sazonalidade de mercado, com faturamento entre R$ 6 mil e R$ 20 mil mensais.
Rodolpho Tirró planeja contratação de funcionários fixos com escala 4×3
Divulgação
Gurumê
A Gurumê, rede de culinária japonesa, implementou a escala 5×2 em 2025. A unidade do shopping Rio Sul, em Botafogo, bairro localizado no Rio de Janeiro (RJ), serviu como piloto em junho daquele ano. Atualmente, cinco das nove unidades da marca já operam no novo modelo. A meta da empresa é que 100% da rede adote o formato até o fim de 2026.
A viabilização da jornada de trabalho ocorreu por meio de um sistema de escalas inteligentes que cruzam a necessidade de pessoal por turno e por hora com o volume de vendas do restaurante. Jerônimo Bocayuva, sócio-fundador da Gurumê, afirma que a aplicação do formato foi feita “sem aumento do Quadro de Lotação de Pessoal (QLP)”. “Essa inteligência de escala tende a extrair mais da equipe em termos de produtividade”, frisa.
De acordo com ele, a decisão visa combater a alta rotatividade do setor de alimentação e fortalecer a rede como marca empregadora. Bocayuva explica que o objetivo é “aumentar a retenção e a performance, criando um equilíbrio entre vida pessoal e profissional para todas as funções do restaurante”. Para o sócio-fundador, a gestão de pessoas deve ser vista como um “diferencial competitivo”.
Unidade do Gurumê em Niterói, no Rio de Janeiro
Divulgação
Boas práticas e orientações de especialistas para redução da jornada
Marcelo Nakagawa, professor de inovação e empreendedorismo do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), orienta que o empreendedor analise como as tecnologias digitais podem racionalizar os custos antes da alteração da escala. Ele afirma que “a redução da jornada integrada à implementação da NR-1 [Norma Regulamentadora nº 1] e a novas tecnologias digitais é uma grande oportunidade para um salto” na produtividade. O docente recomenda que o gestor deve buscar apoio em mentorias e redes de aprendizado, pois “o maior erro neste momento é tentar fazer uma transição sozinho”.
A segurança jurídica é outro ponto crucial, exigindo que toda alteração seja formalizada por escrito para proteger o negócio. Paulo Renato Fernandes, professor da Fundação Getulio Vargas de Direito Rio, ressalta a necessidade de formalização. “O contrato de trabalho bem feito é a primeira linha de proteção da empresa. Não pode fazer nada sem contrato, sem aditivo contratual, sem termo de alteração”, afirma. Fernandes sugere o acompanhamento de indicadores como “produtividade, assiduidade, pontualidade, rendimento, meio ambiente de trabalho, o nível de estresse” para validar o sistema.
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Em meio ao debate, donos de pequenos e médios negócios têm flexibilizado jornadas de trabalho e relatam impactos na gestão. A transição para modelos como a escala 5×2 resultou na redução da rotatividade de pessoal (turnover), na queda do número de atestados médicos e no aumento da produtividade das equipes. As empresas registram maior tempo para o lazer dos colaboradores e o uso de tecnologias para manter o funcionamento da operação.
PEGN ouviu empreendedores de seis negócios que implementaram escalas de trabalho reduzidas e flexíveis para os funcionários. Veja a seguir:
DomEduc
Com sede em Alphaville (SP) e um quadro de 25 colaboradores, a DomEduc – empresa de educação corporativa – adotou o modelo 5×2 para a jornada de trabalho. A mudança da escala ocorreu por meio da implementação de inteligência artificial na área comercial, o que permitiu a automação de etapas da jornada do aluno e a redistribuição da operação. Douglas Domingues, CEO da DomEduc, afirma que “a mudança veio da visão de que o crescimento precisa caminhar junto com eficiência e qualidade de vida”.
O redesenho operacional exigiu o mapeamento da atuação humana e a integração da tecnologia em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) da empresa. De acordo com Domingues, o desafio central foi assegurar que “a experiência do aluno continuasse fluida” durante a adaptação de rotinas, metas e fluxos de atendimento.
Os impactos destacados incluem ganho de eficiência comercial e maior organização na operação. Com a absorção de tarefas repetitivas de matrícula e atendimento pela tecnologia, a equipe passou a ter uma “atuação mais estratégica”, com foco em conversão e relacionamento. O executivo relata que a mudança gerou um “time mais engajado, descansado e com melhor qualidade de entrega”, além de um clima organizacional “mais leve e produtivo”. Para o CEO, o mercado passará a exigir modelos que unem resultado à “sustentabilidade humana”.
Seven Kings Burger
A rede de hamburguerias Seven Kings Burger, de São Paulo, iniciou as atividades em novembro de 2017, após o sócio-fundador Fernando Russel vencer um concurso nacional de culinária. Atualmente, a empresa possui três unidades operacionais: na cidade de Santos, no litoral; Moema e Perdizes, bairros localizados na capital paulista. No total, o quadro de funcionários é composto por 30 pessoas. O faturamento conjunto das unidades é de aproximadamente R$ 700 mil mensais.
A implementação da escala 5×2 em todas as unidades ocorreu em abril de 2026, depois de um período de testes na unidade de Moema, iniciado em junho do ano anterior. Para viabilizar o modelo, a empresa passou a abrir às segundas-feiras e contratou um funcionário adicional. Russel relata que o impacto da mudança foi “positivo e surpreendente”, superando as previsões dele e dos outros dois sócios. Segundo o empreendedor, a alteração resultou em “funcionários mais dispostos e menos atestados”.
Russel pontua que o modelo gera “funcionários mais saudáveis mentalmente, com mais tempo de lazer para descansar”. O sócio informa ainda que a carga horária atual é, em geral, menos do que 40 horas semanais.
Fernando Russel, sócio-fundador da Seven Kings Burger, relata que adoção da 5×2 gerou resultados positivos para o negócio e os funcionários
Divulgação
Fala Bar e Chora Café
A escala 5×2 foi implementada no Fala Bar em 2024, enquanto a cafeteria Chora Café utiliza este formato desde o primeiro dia de funcionamento. Os dois empreendimentos estão localizados em Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ). “Com a escala 5×2, nós teríamos uma equipe mais descansada e disposta e de acordo com o que acreditamos como forma de gestão de equipe”, diz Tomás Lemos, sócio dos estabelecimentos.
O empreendedor relata que a empresa não enfrentou dificuldades na nova dinâmica, registrando uma melhora operacional desde o início do processo. Segundo ele, os impactos observados na operação incluem “redução de rotatividade de pessoal, com uma equipe mais motivada a fazer as funções necessárias”.
Lemos destaca ainda que houve um aumento na procura de profissionais interessados em trabalhar nas unidades, o que “facilita possíveis novas contratações”. “Os funcionários perceberam logo de cara uma mudança positiva, pois numa escala mais humanizada as pessoas têm mais tempo para resolver problemas pessoais, mais tempo para lazer e cuidar da saúde”. Para o sócio, o bem-estar da equipe “reflete diretamente na forma como ela leva o trabalho e as obrigações do dia a dia”.
Chora Café opera na escala 5×2 desde a abertura em 2024
Divulgação
Tirrô Confeitaria Artística
O Tirrô Confeitaria Artística, ateliê de bolos de casamento e doces finos, localizado em Brasília (DF), opera atualmente com prestadores de serviço sob demanda. O confeiteiro e proprietário, Rodolpho Tirrô, planeja a transição para a contratação de dois funcionários fixos em uma escala de trabalho de 4×3. O modelo prevê que os colaboradores se revezem durante a semana, com encontros em dias específicos, sendo um focado na produção e outro no desenvolvimento artístico.
Tirrô, que possui histórico de trabalho na escala 6×1 nos setores de publicidade e arquitetura, afirma buscar modelos que priorizem também a qualidade de vida da equipe. “Não quero que ninguém sofra as consequências do excesso de trabalho”, afirma. O empreendedor relata que, em áreas de criação, a motivação impacta a entrega final. “Com a troca e flexibilização da escala, a produtividade aumenta e o colaborador fica feliz e motivado, produzindo mais e melhor”, diz.
A mudança visa ainda o aumento do repertório criativo da equipe. Segundo o proprietário, o descanso permite que o colaborador traga mais conteúdo para o ambiente de trabalho. A estruturação de uma equipe fixa faz parte da estratégia para criar “uma linha de produção mais atrativa para o público final”. Atualmente, o negócio lida com uma sazonalidade de mercado, com faturamento entre R$ 6 mil e R$ 20 mil mensais.
Rodolpho Tirró planeja contratação de funcionários fixos com escala 4×3
Divulgação
Gurumê
A Gurumê, rede de culinária japonesa, implementou a escala 5×2 em 2025. A unidade do shopping Rio Sul, em Botafogo, bairro localizado no Rio de Janeiro (RJ), serviu como piloto em junho daquele ano. Atualmente, cinco das nove unidades da marca já operam no novo modelo. A meta da empresa é que 100% da rede adote o formato até o fim de 2026.
A viabilização da jornada de trabalho ocorreu por meio de um sistema de escalas inteligentes que cruzam a necessidade de pessoal por turno e por hora com o volume de vendas do restaurante. Jerônimo Bocayuva, sócio-fundador da Gurumê, afirma que a aplicação do formato foi feita “sem aumento do Quadro de Lotação de Pessoal (QLP)”. “Essa inteligência de escala tende a extrair mais da equipe em termos de produtividade”, frisa.
De acordo com ele, a decisão visa combater a alta rotatividade do setor de alimentação e fortalecer a rede como marca empregadora. Bocayuva explica que o objetivo é “aumentar a retenção e a performance, criando um equilíbrio entre vida pessoal e profissional para todas as funções do restaurante”. Para o sócio-fundador, a gestão de pessoas deve ser vista como um “diferencial competitivo”.
Unidade do Gurumê em Niterói, no Rio de Janeiro
Divulgação
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Marcelo Nakagawa, professor de inovação e empreendedorismo do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), orienta que o empreendedor analise como as tecnologias digitais podem racionalizar os custos antes da alteração da escala. Ele afirma que “a redução da jornada integrada à implementação da NR-1 [Norma Regulamentadora nº 1] e a novas tecnologias digitais é uma grande oportunidade para um salto” na produtividade. O docente recomenda que o gestor deve buscar apoio em mentorias e redes de aprendizado, pois “o maior erro neste momento é tentar fazer uma transição sozinho”.
A segurança jurídica é outro ponto crucial, exigindo que toda alteração seja formalizada por escrito para proteger o negócio. Paulo Renato Fernandes, professor da Fundação Getulio Vargas de Direito Rio, ressalta a necessidade de formalização. “O contrato de trabalho bem feito é a primeira linha de proteção da empresa. Não pode fazer nada sem contrato, sem aditivo contratual, sem termo de alteração”, afirma. Fernandes sugere o acompanhamento de indicadores como “produtividade, assiduidade, pontualidade, rendimento, meio ambiente de trabalho, o nível de estresse” para validar o sistema.
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