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Empreendedores relatam prejuízos após terem contas derrubadas no Instagram; como reduzir dependência?

Uma série de reclamações de empreendedores sobre banimentos e exclusões de contas tem permeado as redes sociais na última semana, principalmente em plataformas da Meta — sobretudo o Instagram.
O pontapé para a discussão se deu quando, no dia 13 de maio, Facundo Guerra, sócio da casa noturna paulistana Love Cabaret, publicou um vídeo em que desabafava sobre as mais de cinco vezes em que a conta do estabelecimento havia sido derrubada pela Meta. Guerra relatou que muitos seguidores foram perdidos e, com eles, potenciais clientes, que poderiam acreditar que a casa havia fechado.
“Como é difícil que nosso negócio dependa de um senhor feudal como a Meta”, diz ele no vídeo. A postagem já ultrapassa a marca de 70 mil visualizações.
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A PEGN, o empresário relata que as contas “simplesmente desaparecem” e que o motivo é sempre “genérico”, como “violação das regras da comunidade” ou “suspeita de fraude”. Guerra alega que as postagens das redes sociais da casa noturna não possuem nada que fere as políticas da empresa.
A Meta foi procurada para comentar, mas não respondeu até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.
“A gente não sabe nem como ou com quem falar”, diz Guerra. “Nós conseguimos trazer a conta de volta. Também sempre nos ajuda um advogado que trabalha com direitos digitais, um amigo de um amigo que trabalha na Meta, mas [diretamente] a gente nunca sabe com quem falar ou o motivo real de as contas serem derrubadas, o que fizemos de errado para poder corrigir”.
Guerra afirma que vive com insegurança e medo de o negócio ir à falência por conta da suspensão das contas, pois o Instagram é o principal canal de comunicação da casa. Por isso, mantém sempre um perfil secundário, mas que não possui o mesmo alcance e engajamento que o original.
A conta do Love Cabaret, que voltou ao ar, está com 135 mil seguidores. O perfil secundário (@loveapenas) possui cerca de 1,7 mil seguidores.
A publicação de Guerra ganhou repercussão. Nos comentários, empresários e empreendedores compartilharam que passaram pelo mesmo problema com seus negócios.
É o caso de Michelle Moll, fotógrafa e proprietária da Naked Fotografia, que tem como principal foco o corpo e a sensualidade femininos. A divulgação de seus trabalhos e publicação de retratos já feitos mostram mulheres de lingerie ou com roupas mais sensuais, porém sem mostrar explicitamente seus corpos.
A conta está ativa, com 124 mil seguidores, porém também já foi derrubada mais de uma vez pela Meta, por “ir contra às diretrizes”, segundo a fotógrafa. “Foi em 2022. Eu simplesmente acordei e minha conta do Instagram não existia mais”, conta ela. “Sem nem um aviso, a conta não estava mais lá. Eu divulgo meu trabalho por meio dessa ferramenta desde 2013 e além disso, eu investia muito dinheiro para fazer anúncios”.
Moll diz que o caso aconteceu em época de Black Friday e que o banimento lhe causou um prejuízo de cerca de R$ 50 mil. A conta ficou mais de um mês fora do ar. Ela afirma ter enviado uma carta à Meta, redigida com o apoio de uma cliente, que é advogada digital. A fotógrafa diz que tem um processo aberto contra a empresa e que, após esse episódio, a conta não caiu mais.
Igor Albuquerque, dono da Lust, uma festa voltada para o público LGBTQ+ em Brasília, também passou por mais de um banimento da conta de seus negócios por parte do Instagram. Ele também administra outras baladas e casas noturnas que têm o mesmo viés da Lust. As contas foram todas derrubadas em outubro do ano passado.
Em um vídeo publicado em dezembro em seu perfil pessoal, Albuquerque diz que perdeu oito anos de trabalho em um clique, por “violação dos padrões da comunidade”. Ele também conta que o perfil da Lust, que tinha 17 mil seguidores, o próprio perfil e os dos sócios também desapareceram da plataforma.
Após a recuperação, o empresário ficou mais atento com os posts e apagou milhares deles, incluindo os que mostravam homens se beijando, ou algo mais sensual.
Ele fez outro perfil para continuar divulgando seus trabalhos, mas não conseguiu o mesmo engajamento. Além disso, novos seguidores recebem a seguinte mensagem ao seguir a conta de Albuquerque: “Analise esta conta antes de segui-la. Por segurança, verifique todas as informações públicas sobre esta conta antes de segui-la”.
O que dizem as diretrizes da Meta?
As diretrizes da Meta para nudez ou atividade sexual preveem a remoção de fotos, vídeos e imagens digitais com genitais visíveis, atos sexuais explícitos ou implícitos e foco em partes íntimas. A empresa afirma que as restrições buscam proteger usuários com faixas etárias, contextos culturais e religiosos diferentes, além de evitar a circulação de conteúdos não consensuais ou envolvendo menores.
Ao mesmo tempo, a política abre exceções para conteúdos considerados educativos, médicos, artísticos ou de conscientização. Nesse item entram imagens de amamentação, cicatrizes pós-mastectomia, cirurgias de afirmação de gênero, protestos e obras de arte com nudez realista. Em alguns casos, a plataforma aplica aviso de conteúdo sensível e restringe a visualização para menores de 18 anos.
A Meta também prevê limitação etária para publicações com sensualidade não explícita, como danças eróticas, simulações de atos sexuais, beijos com língua aparente e poses sugestivas.
Como reduzir a dependência das redes para o seu negócio?
Cuidar da segurança digital, como a ativação em dois fatores, por exemplo, é uma medida básica para empresas e empreendedores nas redes sociais, segundo Priscila Milk, especialista em redes sociais e professora de mídias sociais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Além disso, é preciso sempre se preocupar em seguir corretamente com as diretrizes das plataformas. Milk diz que muitos segmentos que têm publicações como saúde, estética, psicologia, direito, cannabis e produtos eróticos, possuem regras mais sensíveis e estão mais expostos a análises automáticas e possíveis penalizações.
“Hoje, grande parte da moderação das plataformas acontece por meio de inteligência artificial, que acelera a identificação de conteúdos inadequados e perfis que possam infringir regras”, explica a professora. “O problema é que essas tecnologias também estão sujeitas a erros e podem interpretar determinados conteúdos de forma equivocada”.
Com isso, alguns perfis acabam sofrendo bloqueios ou penalizações mesmo sem uma violação intencional. Por isso, além de seguir as diretrizes, é importante acompanhar alertas da conta e, quando necessário, solicitar revisões manuais.
Milk reconhece que, hoje em dia, é imprescindível que as empresas estejam no ambiente digital, pois as redes funcionam como uma vitrine da marca e, muitas vezes, como o primeiro ponto de contato entre empresa e consumidor. “Uma marca que não possui presença digital acaba transmitindo uma sensação de ausência ou até de desatualização para o público”, diz a especialista. Segundo ela, além da visibilidade, as redes sociais também ajudam na construção de autoridade, relacionamento e confiança. Por isso, estar no digital deixou de ser apenas uma opção de divulgação e passou a ser parte essencial da percepção de valor e credibilidade de uma empresa.
Antes de comprar um produto, contratar um serviço ou visitar um estabelecimento, as pessoas costumam pesquisar e analisar perfis e ver como a empresa se posiciona on-line, de acordo com Milk.
De todo modo, a professora salienta que é um risco uma empresa depender apenas de um canal de comunicação, pois é perigoso criar uma dependência de uma plataforma que o empreendedor não tem controle.
“É importante que a estratégia de comunicação seja construída em um ecossistema de canais. Mesmo que exista uma plataforma principal, a empresa precisa distribuir sua presença entre diferentes redes, como Instagram, TikTok, LinkedIn e outros espaços onde seu público realmente esteja”, explica. “As redes sociais são excelentes vitrines e ferramentas de alcance, mas o negócio da empresa não pode depender exclusivamente de uma única plataforma”.
Milk também defende que esses negócios tenham canais próprios, como newsletters, e-mail marketing, WhatsApp e comunidades exclusivas, onde a marca possui maior controle sobre a comunicação com os clientes.
Diego Oliveira, professor de Marketing, Mídias e Inovação da ESPM, concorda que atualmente o caminho mais seguro é construir uma presença digital distribuída, sobretudo com canais próprios. “O grande desafio é entender que a empresa não ‘é dona’ da plataforma. Ela ocupa um espaço alugado dentro de um ecossistema privado que pode mudar regras, algoritmos e critérios a qualquer momento”, diz.
O professor define a dependência de apenas uma plataforma como um “erro estratégico”, porque se trata de algo que foge do controle do empreendedor. “Na prática, muitas empresas descobriram que tinham audiência, mas não tinham comunidade própria. Tinham seguidores, mas não tinham os dados do cliente. É um erro estratégico depender exclusivamente de uma plataforma terceirizada para manter o relacionamento com o público”, conclui.
Oliveira ainda elucida que o ideal é que a empresa transforme sua audiência em uma base própria de relacionamento, pois os seguidores e perfis pertencem à plataforma. Já a comunidade, os contatos e a relação construída pertencem à marca.
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