A poucos metros do Largo da República, a Rua Bento Freitas reúne uma sequência de bares e empreendimentos voltados ao público LGBTQIAPN+ que passaram a operar como um ecossistema integrado no centro de São Paulo (SP). O movimento constante de clientes transformou a via em um dos pontos mais consistentes da economia noturna da cidade.
A consolidação desse circuito não se limita ao fluxo de pessoas, mas à forma como os negócios passaram a se organizar no espaço urbano. Bares, hamburguerias e outros empreendimentos dividem uma mesma dinâmica de operação: funcionamento estendido, alta rotatividade de público e concentração de consumo em horários noturnos e fins de semana.
Essa ocupação também tem uma dimensão histórica. O professor de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador em gênero e diversidade, Renan Quinalha, observa que a presença LGBT+ em áreas centrais como a República sempre existiu, mas sob condições restritas. Em sua avaliação, a comunidade historicamente só conseguiu ocupar certos espaços da cidade em contextos de marginalização ou menor valorização urbana.
Como ele resume, a lógica era de permanência condicionada: “a comunidade LGBT+ sempre pôde existir apenas em espaços guetificados, em guetos, espaços reservados para uma certa marginalidade ou associados a uma certa marginalidade na cidade”. Segundo o pesquisador, esse cenário começa a se reconfigurar com a reocupação de áreas centrais como a Bento Freitas, impulsionada por novos perfis de consumo, incluindo o público LGBTs de classe média e turistas.
A efervescência da rua como ponto de encontro também motivou propostas de intervenção urbana. O vereador Nabil Bonduki (PT-SP) propôs que a via passe a integrar o programa Ruas Abertas, permitindo o fechamento para carros em horários de maior movimento, como sextas e sábados à noite. De acordo com o parlamentar, a circulação de veículos em meio às aglomerações cria situações de risco para o público. A proposta parte da ideia de que a ocupação intensa do espaço público pode contribuir para aumentar a sensação de segurança na região.
PEGN ouviu três empreendedores que detalham a consolidação do circuito de negócios na Rua Bento Freitas. Veja a seguir:
Blue Bar, Blue Station Burger e Sunbear/Bluebear
O ecossistema de negócios liderado por Marcelo Maniá, 57 anos, começou a se desenhar na via há quatro anos com a abertura do Blue Bar. Diante do fluxo crescente, o empresário e seus sócios expandiram a atuação na mesma calçada com a hamburgueria gourmet Blue Station Burger e a marca de vestuário Sunbear e Bluebear. “Era uma rua pouco comercial e noturna. Trouxemos uma proposta diferente: luz, cor, música e DJs”, relata Maniá.
O impacto financeiro gerado pela comunidade se reflete em um faturamento em constante ascensão, impulsionado pela lógica da cooperação local. “Não existe competitividade, existe soma. A cada bar que abre, meu negócio se torna mais rentável porque o movimento aumenta para todo mundo”, avalia o empresário, que recebe de 300 a 400 clientes por noite no bar, de quinta-feira a domingo.
No Mês do Orgulho e na semana da Parada LGBT+, a receita das operações chega a triplicar. O desempenho comercial financia investimentos contínuos: o grupo já realizou cinco reformas estruturais no bar, incluindo a criação de um mezanino acústico para conter o ruído, além de manter equipes de mais de 20 funcionários uniformizados para agilizar o atendimento. O engajamento da marca também se estende ao apoio a peças teatrais locais e ao patrocínio de times da Ligay Gay de Futebol do Brasil.
O principal desafio do grupo é equilibrar a intensa atividade boêmia com o bem-estar dos moradores locais. Para mitigar impactos, os sócios buscam interlocução com o poder público por meio de assembleias de condomínio. As demandas prioritárias junto ao município incluem o reordenamento do trânsito na Bento Freitas e a instalação de infraestrutura temporária, como banheiros químicos, em datas de grandes festivais de rua.
Frequentadores ocupam a calçada em frente ao Blue Bar, na Rua Bento Freitas, um dos principais pontos de encontro da comunidade LGBT+ em São Paulo
Divulgação
Dédalos Bar
O estabelecimento se instalou no endereço em abril de 2019, sob a gestão de Thiago Marques, 42 anos, gerente de marketing da marca. Escolhido estrategicamente pela proximidade com o Largo do Arouche, o sex club enfrentou problemas crônicos de iluminação e segurança nos primeiros meses. “Começamos a fazer melhorias na infraestrutura nós mesmos. Instalamos iluminação na fachada e posicionamos segurança privada na calçada”, afirma Marques.
Por operar com alvará de 24 horas, o local funciona como um polo de absorção do público remanescente de outras casas da região. O peso financeiro do público LGBT+ é o pilar de sustentabilidade do negócio, que registra alta expressiva em junho. “Aumentamos o preço de entrada em 30% a 40% durante o Mês do Orgulho para conter as filas, que chegam a dobrar a esquina. Ainda assim, o tíquete médio cresce até 50% porque as pessoas passam mais tempo no local e consomem mais”, revela o gerente.
A solidez do modelo na Bento Freitas impulsionou a expansão da marca, que mantém uma filial em Belo Horizonte há dois anos e inaugurou recentemente uma unidade no centro do Rio de Janeiro.
Os principais desafios da operação envolvem o ordenamento urbano e o treinamento de equipe. Em períodos de grandes eventos, a circulação na Bento Freitas chega a atingir cerca de 30 mil pessoas, gerando conflitos viários. “Nossa meta atual, junto a representantes políticos, é conseguir a autorização formal da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para fechar a rua nos dias de maior fluxo, como vésperas de feriado”, diz Marques. Internamente, a empresa foca em letramento e integração de novos funcionários para garantir um atendimento alinhado à comunidade, além de realizar o monitoramento e o bloqueio temporário de clientes que excedem o consumo seguro de bebidas alcoólicas.
Fachada do Dedalos Bar, um dos estabelecimentos que ajudaram a consolidar a Rua Bento Freitas como um dos principais pontos de encontro da comunidade LGBT+ em São Paulo
Divulgação
Lord Byron
O bar passou a operar sob a administração de Damião Pereira, 56 anos, em abril de 2024. De acordo com o proprietário, a expansão comercial da via foi drástica desde a abertura da casa. “Quando assumimos, havia quatro ou cinco bares na rua. Hoje, são mais de 15. A grande mudança gerada por essa evolução e pela presença do público foi a diminuição da violência”, aponta Pereira.
Do ponto de vista financeiro, a circulação constante do público-alvo dita o ritmo de investimentos no local, como melhorias em calçadas, sistemas de som e contratação de mão de obra. Durante o Mês do Orgulho e o período da Parada LGBT+, o fluxo de clientes chega a triplicar ou quadruplicar na Bento Freitas. “O consumo de bebidas e a extensão do horário das festas elevam o tíquete médio consideravelmente, o que praticamente dobra o faturamento em relação a um mês comum”, explica o empresário. Para ele, a sobrevivência financeira de todos os bares instalados no polo depende diretamente do poder aquisitivo desse nicho de mercado.
Pereira aponta a necessidade de união entre os comerciantes para mitigar os impactos da atividade boêmia no entorno residencial. A concorrência irregular de comércio ambulante em datas festivas e a adequação rigorosa à Lei do Silêncio são tratadas como prioridades para assegurar a sustentabilidade de longo prazo do estabelecimento. Para o proprietário, o fortalecimento da Bento Freitas como polo de socialização gera um ciclo de benefícios mútuos, ampliando a arrecadação de impostos municipais e gerando postos de trabalho diretos na capital paulista.
A Rua Bento Freitas fica tomada pelo público durante a Parada do Orgulho LGBT+, uma das datas de maior movimento para os bares e estabelecimentos da região
Divulgação
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